sofro de uma terrível maldição

por J

quando tu me levou pra andar pela cidade, bruno, eu achei que era simples te pegar pela mão e sair andando.

 

quando eu me apaixono eu sou esse bicho doido e cheio de dentes que só quer ficar. que se alimenta de outros bichos apaixonados e igualmente cheios de dentes, e a gente se mastiga.

vez por outra esse fenômeno acontece.

quando eu voava pra são paulo, antes de te conhecer, eu pensava em d., a quem eu via uma vez a cada duas semanas, provavelmente. tínhamos um ritual.

ele vinha trazendo alguma bebida, íamos pra varanda conversar, quase sempre sobre política. sobre literatura, talvez. a gente bebia e começava a transar. a gente vinha pro quarto. por volta de uma hora da manhã, ele pedia um carro e ia embora, morrendo de medo de dormir aqui. eu, no entanto, nunca quis mais do que isso. me bastava.

com d., eu nunca tive medo de errar a dose porque nosso círculo era bem circunscrito, fechado. com algum carinho, mas havia um limite muito claro entre a minha cama e a sala da porta. contigo não. tinha sempre um rio grande pra dentro, ficava nadando, nadando, tentando achar o fundo. me pergunto como diferencio um homem do outro, como um me traz essa euforia ansiosa, completa, absurda e o outro não?

eu me diverti em nossa noite juntos, mas não me apaixonei enquanto a gente ia em direção ao aeroporto. só voltei pensando que eu tinha sorte, que tinha tido uma noite bonita. quando cheguei em casa, já tinha mensagem tua. e uma conversa que não acabava, a nossa conversa nunca acabava. te convidei a vir por convidar, mas teu interesse foi me convidando a ir mais fundo. por que tu fez isso?

tu veio, e foi bom, e foi bonito, o sexo explodia, mais delicioso a cada aprendizado de um novo corpo; se multplicavam os beijos, abraços, carinhos, preguiças e ternuras. eu não via coisas, via? tu me dizia das expectativas e vontades, me abraçava rodopiando no meio do saguão de desembarque e eu ficava achando que era tão real. achei que tudo era real pra cacete e me senti, como diria matilde, como o velocímetro de um austin martin numa estrada de kathmandu; que a velocidade e a fúria fossem parte do meu amor; seu cheiro reinava em toda parte.

disse a d. que não nos encontraríamos mais e ele me felicitou pelo novo namorado, aquela palavra que desperta arrepios em ti. não perdi meu tempo explicando que era um relacionamento compromissado, aparentemente monogâmico e público porém não era um namoro para ninguém, por que a quem isso interessaria além de nós?

tu veio me ver e foi sumindo aos pouquinhos das telinhas que uso pra chegar perto de ti. quiçá o projeto, quiçá o jogo da conquista estando mais assentado eu deixava de ser novidade, e meus sinais iam todos ficando amarelos pra ti. ainda assim, comprei uma passagem pra te ver, contando os dias e as horas, esperando a mesma explosão, o mesmo amor.

e o amor veio, porque quando estamos juntos ele sempre vem. ele vem e se acampa, ele vem e finca bandeira, e diz: estou aqui, e aqui impero; e impera nos toques dos dedos e nos bicos dos seios, nos orgasmos aquáticos no escuro ou na luz amarela do fim de tarde, nos toques devotos, quase santos, no carinho da espuma do banho. como pode?

como pode tu me dizer que se apaixona de novo e de novo, que a gente se desliza pela pele tanto quanto pudermos?

estou falando dos silêncios e das pausas. dos pensamentos e dos desejos de encontro.

Captura de tela de 2017-06-14 23-26-44

diferente de tanta gente que eu amei, a gente só existiu um pro outro quando entramos na mesma sala.

naquele tempo, se eu pudesse eu lavava seus pés. esticava os encontros. voltava na casualidade do tempo. dava um respiro (se tudo não me parecesse tão estranhamente igual ao meu coração quebrado). se eu pudesse eu ficava em silêncio. se eu pudesse, me contentaria com o que tu dá conta, e a gente ia ser feliz por um mês, ou dois. ou mais.

te fotografei com a minha zenit, a máquina de revelar embustes. quando eu revelei, tinha uma porção de fotos tuas. pedi a yemanjá que me trouxesse pra perto de ti, e chorei porque queria tanto fosse o amor. mas minha mãe sabe o que é melhor pra mim, deixou o tempo passar.

aí vieram as descobertas das mentiras. uma. depois a outra. aí eu soube que eu era mais uma numa lista longa de queridetes. parabéns.

aí eu fui sacar que mulher era teu passatempo, mesmo quando cê jurava de pé junto que aquilo era real, que aquilo era meu. que eu era sua menina. meu coração foi se acostumando devagarinho a entender que aquilo só existia pra mim, dentro de mim. que era uma ilusão tão bonita.

tu dorme tranquilo a noite, eu sei. mas estou acordada, com esse chumaço de algodão na garganta. dessa vez eu quis tanto, tanto, tanto o amor. dessa vez ele parecia óbvio. mas não é, nunca é.

hoje eu me pergunto quanto daquilo foi verdade, quanto daquilo foi mentira. mas sua cama já tá ocupada pela próxima. toca ficha daí, que eu toco ficha daqui. deixo o karma cuidar do resto.

hoje foi um dia difícil, mas eu vou te esquecer. você me machucou, mas vai fechar.

a lua tá nova.

e isso  também vai passar.

Anúncios