ficções

por J

na ficção número um, tu me liga com tua voz linda de morrer
assim que acabar a minha quadratura de marte
com meu mercúrio natal
dizendo que tava cansado, que queria um tempo, que tá com saudade.
que entende. que a gente não soube, mas ia saber.
e que vai ficar tudo bem porque eu te toquei do mesmo jeito que tu me tocou.
eu digo que já sabia, porque perguntei ao tarô e deu dois de copas.
tu vem, e passeamos pelas ladeiras de olinda, borrachos que só, e tu gargalha tanto que esquece da hora, e a gente vê o sol nascer perto do mar
debochando de poseidon, macho transtornado
e arriscamos molhar os pés
na água suja
antes que esse momento vá embora pra sempre

na ficção número dois, tu não me liga.
eu te ligo.
te explico o que tá rolando na minha vida, o que aconteceu nos últimos dias, os meus processos de cura, a minha catarse que foi linda e incrível. tu meio ressabiado ainda. meio chateado. mas me ouve. a gente resolve deixar assim mesmo, ver o que dá. eu volto pra beagá, raspo meu cabelo e assisto tua peça caladinha na platéia
acaba a peça e eu entro num personagem
e digo: oi, adorei a peça, qual teu nome?
tu, perspicaz que é, entra no jogo, e damos reset em tudo
eu pego teu telefone
e te chamo pra me encontrar na cledir
conversamos e bebemos até o amanhecer,
e dessa vez eu te olho nos olhos
o tempo
todo
e te conto que meu coração estava partido
por um moço que eu não soube ter,
eu tentei fazer malabares e caiu tudo no chão
mas que aquela noite me mergulhou
como água, como qualquer coisa que brilhe
e tu me leva naquele canto da rua sapucaí
que tem a vista mais linda da cidade,
e muy borachos
nós gargalhamos e tu pergunta se pode ver o meu pé
no banco da praça
e ficamos lá
embaixo do teu xale
e você tem aquela meia azul de bolinhas
e meu pé está sujo
mas você não se importa.
você pega nele e diz
ao tatear meus dedos
que eu posso ser um pouco impulsiva
às vezes
e dessa vez você não me deixa na porta de casa
fugimos prum abrigo
alguma ruína secreta, submarina
onde possamos juntos
ser cúmplices de qualquer crime

na ficção número três tu nunca me liga
nunca mais
e eu te perdi pra sempre
dias depois revelo o filme
da minha câmera soviética
e vejo seu rosto sorrindo
impresso numa tarde doce na cozinha de brincadeiras
de comida queimada porque o que urgia
era te devorar pra dentro de mim
e me virar do avesso
e tu sem querer me tocava
o coração-mundo-gozo
eu te mando a foto por correio
com esse verso do bukowski
e tu me ignora completamente
a revelação é barata mas meio ruim
dois anos depois a foto desbota
e eu já não consigo ver as pintinhas do seu rosto

na ficção número três a
o tempo passa e nos vemos pela cidade
e o meu coração sangra mas eu sou forte
e as cores vão desbotando com o tempo
que cura tudo
e guardo comigo teu afeto
pra sempre comigo
porque tu olhasse
pra dentro de mim
porque eu me despi
e tu disse
‘você é tão bonita’
e eu tive a certeza absoluta de ser
a mulher mais bonita
do mundo
mas somos estranhos
tudo é estático
e nem mesmo o vento
ousa levantar
o meu vestido

na ficção número três bê
se passam uns tempos
onde eu fujo de tu feito o diabo da cruz
feito o medo do coração
e aí edgard me convida pra uma bebedeira
que pode ser aniversário, ou casamento, ou sei lá
e eu sei que tu vai estar lá,
e eu escolho meu melhor vestido,
fingindo naturalidade
e a gente se cumprimenta e faz a cordial
aí conversamos e rimos e nos ilhamos
e quando a gente assusta
estamos assustadoramente próximos
mas não acontece nada.
vamos embora, cada um pra sua casa
em silêncio

na ficção número quatro
tu não se admira do tempo que passei sozinha
já que eu soy loca, mi amor
loquinha de pedra
eu te ligo e tu impaciente
(mas com ternura)
diz que é melhor assim
eu engulo o choro
passo um batom marpávagabundo
e vou pra alguma festinha
em alguma ladeira
de olinda
beijar algum homem com gosto de cigarro e cerveja quente
e quase prendo a respiração quando ele tira a camisa
porque as sardas dele me lembram
tu
e repito esta operação
até ir embora
e até tu ir embora
de mim

na ficção número cinco
eu saio pra dançar tecnobrega com narciso
arrebenta a correia do meu chinelo
eu capoto e bato o cocoruto no chão
acordo dois dias depois no hospital
sem lembranças recentes
e tudo é pacífico como as superfícies do capibaribe
e tudo é claro e simples e plano como uma folha a4
e eu tenho menos ambições
que os gabirus
velozes
perdendo-se de vista
em meio às águas

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