acidente de trabalho

por J

nada como a folha em branco, aquele pavor absoluto, para recomeçar a escrever.

é difícil, veja bem.

 

é como frequentar doloridas sessões fisioterapêuticas;

 

estico minha literatura lentamente, depois a contraio, retorcendo o rosto enquanto meu coração me olha resiliente de jaleco branco.

 

redobra minha literatura novamente, o coração, mãos delicadas, e, quando menos espero, vejo que se move só: a literatura que jazia estática, não o coração, evidentemente, pois senão eu estaria morta. este massageia o poema, que doi, mas que se recalcifica, e em breve andará por outros desassossegos, restituir os ligamentos cansados entre as letras e os sentires, lutar na faixa de gaze, deter exércitos de chaleiras.

 

e depois virará ao avesso de novo, apontando costelas encostadas em cinzas de cigarro

livros velhos

chicletes mais ou menos novos

convulsões (duas)

odiando transgênicos e transfóbicos

 

essa corja toda

que fez derrapar-me às tristanhas

e foi aí que quebrei

 

o léxico universal

 

Anúncios