O gambé e a puta

por J

Faz um ano.
Depois de um dia cheio e cansativo, queria finalmente encontrar o cara que, à época, era meu namorado.
Saí de casa meio desembestada, já estava tarde. O ônibus demora, não só a chegar no ponto, mas a chegar em seu destino, desconfortável, abarrotado, uma epopeia de semáforos e ansiedades.

Atravessando a passarela escura, vi de longe o vulto de duas pessoas que, metros mais tarde, se revelaram ser um rapaz fardado e uma moça, os dois muito novos, meio tímidos e desengonçados, conversavam no que era irrefutavelmente um flerte. Ambos meio incertos, mas visto de fora o flerte é sempre assim, óbvio. Achei a cena curiosa, desacelerei enquanto observava. Tornava-se cada vez mais inevitável o beijo que se seguiu, e finalmente os ultrapassei, perdendo de vista.

Segundos depois, a menina passa correndo de encontro à amiga, um pouco à frente, e também inevitavelmente as duas dão gritinhos empolgados, risinhos, iniciam a perguntação e contação de detalhes, se pegou o telefone, se vão se ver depois, aquela graça universal. Nisso me ultrapassa uma terceira jovem de encontro às duas, um pouco impaciente mas divertida, e inicia um deboche cheio de ternura. Por fim, dispara rindo:

-Vocês que fiquem aí, que eu vou é ganhar o meu.

E saiu revirando os olhos, com ares de irmã mais velha, acelerou o passo, se postando junto às outras mulheres debaixo da marquise, que se curvavam às janelas dos carros. Só então entendi: as jovens prostitutas à minha frente se preparavam para iniciar dali a pouco o expediente, caminhando agora lentamente. Silêncio. Um suspiro longo e a apaixonada dispara:

-Ai, meu coraçãaao!

As duas explodem em gargalhadas, e de repente ela olha para trás; me flagra observando e sorrindo, e divertida sorri de volta, cúmplice. Naquele instante, apenas naquele, o abismo que nos separava ficou pequeno e éramos só duas garotas recém cuspidas da adolescência, de mãos suadas e coração acelerado, com expectativas e sonhos que tempos depois a vida trataria de frustrar.

Guardei para sempre o seu olhar em minha memória, me lembrando que o amor surge em meio a asperezas, belo, delicado, insensato, inexorável e absurdo como um beijo entre um gambé e uma puta.

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