Sobre minha mãe

por J

Minha mãe sabe onde estão os alfinetes. Minha mãe sempre sabe onde estão os alfinetes. Vasculha, pterodátila, todos os cantos e os tapetes da casa, em busca de tesouros de grandezas imensuráveis, ainda que sejam pequenos brincos ou trapos perdidos. Sabe algo de todos os mistérios desta e de algumas outras vidas, de modo que oculta-os apenas para não chocar-nos ante o cosmos, pois a nossa ignorância é imensa e não entendemos de nada. Minha mãe usa de uns e outros códigos, enquanto uso de outros, de modo que nossa comunicação é por vezes etérea e pouco verbal. Temos os mesmos olhos, grandes, castanhos, céticos e debochados, que se encontram vez por outra quando precisam; trocam dizeres.

Em outras encarnações, minha mãe foi uma dessas mulheres obtusas e pungentes, e dava ordens a capitães e generais, que estremeciam de pavor ao agudo e estridente som de sua voz ecoando pelos saguões de chumbo. Ou melhor, não sei. Não sei se condessa ou ditadora, dessas que estraçalhavam as multidões ao esporejar do sangue, ou mesmo beneditina, raspando resiliente o gosto amargo de uma vida contrita em uma cela meticulosamente limpa com disciplina pedante. Tem gênios e gênios, mas sabe-se lá quais seriam os destinos reservados aos seus dedos, que nesses tempos andam cortados e ressequidos pelo sabão em pó. Acariciam as minhas enxaquecas e noites sem dormir. Colocam armadilhas vis sob os meus pés, que ferem onde me toca a sola, e somente, somente assim, entendo tudo o que existe.

Eu a chamo por um instante, e ela me diz “que é”, e eu respondo “nada”, e ela diz “como nada”, e eu digo “apenas nada”, e ela se volta triunfante, as mãos na testa, estóica e absoluta, e estraçalha-me com os olhos, e aponta os dizeres, os achados, os pedaços, e eu digo “tudo bem”, e ela ri “tudo bem”, e vamos ambas embora porque temos pressa, e a vida gosta de maltratar-nos, essa amálgama de mulheres que insistem em querer o mundo. Teimosas, arredias, arrogantes, resistem pelas graças de seus próprios milagres.

Minha mãe põe o café. Dorme pouco. Dorme menos. Sente dores, toma seus remédios. Não adianta. Liga todos os rádios da casa, numa sinfonia eterna de programas popularescos, de canções que aprendi a achar graça. Fala ao telefone enquanto costura uma barra, precisa e cirúrgica, indelével. Diz que chegou, tranca a porta. Acende as luzes à noite, apaga de manhã. Vive. Respira. Fala. Não sem dificuldade. Não sem a agonia intrínseca a este melindre que é estar vivo. E, ainda que o esconda entre pilastras, não sem medo. Fomos. Somos. Seremos.

Por fim, minha mãe tornou-se literatura; minha mãe venceu a morte.

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