Baby blue

por J

De algo tenho certeza: o que ela possuía de mais belo eram os seus imensos olhos castanhos, muito tristes, que refletiam sua imensa solidão. De resto, não sei nada. Não tenho certeza. Não me preocupei em recordá-la, gravá-la em registros, eternizá-la; fazê-la vencer a morte e o tempo através de um movimento de minhas mãos. Apenas a vivi, como um sopro efêmero de melancolia em meio ao passar dos poucos dias que tivemos. Ela e eu. Egoísta, prepotente, fiz com que ela só existisse em minhas memórias, em meu tempo. Ela só existe em mim.

Encontrei-a numa noite suja. Olhei-a por longas horas, desgastamos copos imundos numa mesa rota. Vivemos. Um dia, pé ante pé, após o outro. Não fumava. Bebia, mas pouco. Apoiava o rosto entre as mãos, estava em outro lugar. Tínhamos sonhos parecidos, ainda que estivéssemos tão cansados. Acariciou-me com sua mão de anéis vagabundos, falava resoluta, quando falava. Recendia a colônia barata.

Espreguiçava indolente pelas manhãs. Tornava à cozinha, fazia qualquer coisa, um barulho da porra com aquelas panelas. Trancava-se em seu quarto. E depois eu via a luz amarelada em seus cabelos desgrenhados pela noite como uma prova de existência matinal, nossos pés maltratados se procuravam. Meu estômago revirava, e ela se prostrava ao meu lado, subserviente e agressiva, quase materna, inexorável. Os livros surrados. As meias escuras. As unhas muito curtas. Os lábios pálidos, anêmicos, rachados. Irritava-me sua arrogância disfarçada de pés descalços. Alegrava-me sua voz cantando no chuveiro no final da tarde. Seu amor pelos cães. Suas fotografias. A curva da cintura. Os cabelos para trás, o rosto muito limpo. Os seios tão comuns, já cedidos ao cansaço. Os brincos esquecidos pelos cantos. Os chinelos pouco usados. Seus lápis, seu grafite, seus pincéis. Suas figuras. Suas cartas escritas à mão, a medida perfeita entre o charme e a anacronia. Suas danças. Seus suspiros longos. Seus vestidos velhos. Suas folhas em branco. Seu jeito de se esgueirar entre os pouco móveis, reptiliana, voraz, invencível. Transpusera tudo, ígnea, por entre as atmosferas de cigarro da noite.

Certo dia, chorou uma angústia inconsolável. Chorou-a tantas vezes, entre meus braços, aos soluços, implacável, como uma criança perdida; chorou-me o colo, a vida, logo a mim, que sou homem, que não sou deus, que sou fraco. Encheu-me de medo, medo plácido, e peço-lhe desculpas, se pudesse vê-la, ah se pudesse vê-la de novo, os mesmos olhos, os mesmos, eternos, eternos, seus passos desastrados, suas risadas debochadas, suas cócegas, suas brincadeiras infantis, seus medos sombrios. Sua silhueta através do vidro enquanto envolvia-se em vapor quente por horas, inconsolável sempre, minha menina. Amei-a incomensuravelmente durante todo o nosso engano, e ela devolvia-me o mesmo, dilacerante, mútua, líquida.

Abandonei-a de súbito. Levantei e parti, mas não sem antes olhar para trás e vê-la desaparecer para sempre e irremediavelmente rumo à noite azul.

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