Pós Lolita

por J

-Mais um, por favor. Pra viagem.

Café, uma broa bolorenta, silêncio. Quando ele se sentou, cobriu-lhe imensa vergonha. O bar sujo, o anacrônico balcão de fórmica vermelha, os quitutes engordurados decompunham-se no desmazelo dos dias e no zanzar das moscas. A televisão chiada no jogo de futebol, a luz meio fraca piscava, cheia daqueles bichos, qual é o nome daqueles bichos?, aqueles que dão em tempos de calor e infernizam todas as lâmpadas da cidade. Os bancos meio sujos, mas quem liga?, os outros só querem repousar a bunda frente ao prato depois de um dia tão cansativo.

O homem de barba ensebada limpava o vidro da janela mecanicamente, enquanto ouvia o narrador berrar em êxtase o gol (“de quem?”), com um semblante cansado e o olhar tão turvo quanto seu roto avental. Do outro lado, um rapaz franzino mascava devagar um salgado borrachento, entretido com a partida, olhava para a pequena tela com olhos muito arregalados.

Lá fora fazia uma chuvinha mirrada, porém insistente, que irritava tanto quanto um daqueles cachorros pequenos. Mas lá, depois da espera e da comida mambembe, tinha ela, no andar de cima. Ela, o desatinar de sua andança, jazia num daqueles apartamentos ordinários e minúsculos, lendo qualquer literatura barata feita para caçar níqueis de mulherzinhas recém cuspidas da adolescência, enquanto esticava as canelas jovens entre meias furadas. Explodia lúdica a goma de mascar já sem gosto de horas atrás. Pintava as unhas com óleos coloridos e fedorentos, folheava revistas, plec, plec, plec, que cristão aguentaria aquilo?, e o barulho continuava, as revistas, o rádio tocando música ruim.

Mas pelas canelas, ah, por aquelas canelas… e ele tomou mais um gole de café.

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