Sobre os sofrimentos

por J

Saíram em desabalada, todos. Pegaram o ônibus para a Serra do Cipó. Eu fiquei, não consegui. Todos tão parecidos, sistemáticos, no desespero esqueceram a luz do corredor acesa. Todos tão teimosos, pragmáticos e duros, herança desse sangue quente misturado com essa alemoada ruim. A casa, tão barulhenta, agora ecoava um silêncio amargo.

“Cada um sofre de um jeito”, disse mamãe. Quando sofre, mamãe fica muito elétrica, mais do que de costume. Quando eu cheguei em casa, as gavetas estavam todas arrumadas com muito capricho, e a senhorinha miúda zanzava pela casa ao telefone, tomando providências, fazendo as coisas, tocando tudo, alimentando as pessoas, tomando e distribuindo remédios. Parecia que, se ela parasse para respirar, ia começar a pensar no ocorrido. E ela não queria, então se ocupava de fazer o máximo de coisas possível ao mesmo tempo.

Já meu tio é alto, gordo e sanguíneo, muito rústico, ora fechado, ora muito alegre. Simples, metódico, pontual – quase ritual. Seu sofrimento desabou num choro desesperado que dele eu nunca ouvi, desmontando-se na falta da filha predileta. Míriam vinha sempre aos domingos ver o pai, e era quem dele mais arrancava a doçura bem guardada, escondida no cenho franzido e na voz embolada.

Quanto a mim, fico sem saber o que fazer. Eu fico andando pelos cantos sem dizer nada, perguntando. Eu tento entender. E percebo que o sofrimento se guarda, às vezes, muito mais profundamente do que a gente consegue abstrair. Que as coisas podem aparentar estar bem, e não estar. Que às vezes desabam as pessoas que menos esperamos no mundo.

Eu quero acreditar que, depois de tanto sofrimento e de tanta dor, existe para Míriam algo de bom e de lindo, mesmo que pareça conveniente demais, servil demais ao meu conforto. Eu não sei onde colocar as mãos.

Talvez, consolar seja exatamente isso: empregar num abraço todas as mãos que não cabem em lugar nenhum.

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