Diagnóstico

por J

Entre as muitas postagens que venho lendo sobre a presença da Polícia Militar na USP, uma me chamou a atenção de modo especial. Ácido, o texto de Matheus Pichonelli está longe do maniqueísmo barato de boteco (virtual) que vemos nas redes sociais – e o critica, é claro. Um erro não exclui o outro: se ocupar a reitoria foi um ato precipitado, utilizar de um aparato policial gigantesco para remover meia dúzia de estudantes da reitoria foi, no mínimo, uma demonstração caricatural de força, aplaudida de pé pela classe média extasiada.

Não de uma forma uniforme, mas especialmente um trecho, me fez refletir muito sobre a hipocrisia de uma juventude que acredita que não há mais barreiras a superar:

 Tenho, para isso, uma tese de botequim: a de que minha geração, nascida em meados dos anos 80 e criada nos 90, foi o maior baby boom de bundões que o Brasil já testemunhou; crescemos com medo da violência, das doenças sexualmente transmissíveis e do outro (do favelado ao muçulmano) e, por este motivo, decidimos nos enclausurar em bolsões de segurança (o shopping, a escola particular e os condomínios fechados) para poder nascer e morrer em paz, sem grandes objetivos na vida a não ser aceitá-la. Por isso aceitamos abrir mão de uma relativa liberdade (porque ela nunca é absoluta) para viver em segurança. E se amanhã algum policial resolver matar algum suspeito (ela chama de “meliante”) entre uma aula e outra na FFLCH ou na FEA, paciência, bola pra frente. Faz parte do jogo.

E com isso, fica, para mim, um gosto amargo na boca. Tenho só dezoito anos, e olho ao redor da minha geração; o que vejo? Somos todos filhos de um neoliberalismo selvagem, de uma hipocrisia sintomática. Incapazes de ir contra qualquer tipo de ordem vigente, exaltamos a legalidade num altar sagrado; só nos esquecemos que, para que fosse possível falar à revelia entres bits e bytes, alguns bandos de estudantes “vagabundos e maconheiros” foram torturados e assassinados anos atrás.

A absorção das informações é simples: para a maioria, só existe um lado da história, e só pode ser o da ordem. Sem senso crítico apurado, é fácil perceber a solução pungente: a presença do aparato policial seria a panacéia para os problemas de segurança do campus. Problemas estruturais? Truculência? Tudo bobagem. O fato da morte do estudante Felipe Ramos ter ocorrido quando a polícia já se encontrava no campus é uma coincidência infeliz, certo? Um engodo do destino…  Bem, pelo menos não é o que pensa Jannerson, aluno da ECA-USP.

O porquê de ser odiável a presença da polícia no campus não é nenhum mistério. Sempre que possível, a repressão acontecerá para o lado mais conveniente: os estudantes negros e pobres que o digam.  A palavra de ordem é podar o movimento estudantil, deixá-lo pequenininho, disperso, “circulandô circulandô”.  Lembrando que, supostamente, são tempos de paz. Devíamos fazer um levantamento com quem entende bem do assunto: os jovens de periferia. E perguntá-los o que pensam das ocupações policiais morro acima. Algo me diz que já sei a resposta…

Crime por crime, sejam coerentes: nossos mantenedores da ordem, os Grandes Paladinos da Justiça, deveriam, no mínimo, apagar suas toneladas de musiquinhas do computador, quebrar seus punhados de dvd’s piratas, mandar fechar o xerox da faculdade. Chega de crimes no ambiente universitário!

E quem nunca saiu da lei (nem assim, de ladinho), que atire a primeira bomba de gás lacrimogênio.

Jullie sonha com um mundo que não tenha polícia para reprimir, e não precise de polícia para proteger. Um mundo muito, muito diferente…

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