Sobre o coração

por J

E eis que Flora me pergunta do amor. Pergunta como está. Se ainda vive, se respira, se acorda comigo todas as manhãs, agitando o sofrimento de café aguado no fundo do peito (ou da caneca de asa quebrada).

E eu respondo que, bem, apenas está. Anda guardado no meio de papéis, mas ainda não teve tempo de amarelar-se como eles. E então o amor acalmou-se. Aquietou-se. Resolveu-se. Resignou-se. Suspirou aliviado por instantes em meio a um guardanapo rabiscado com uma letra feia. Não viu enquanto eu passava o batom, ligava o rádio, abria uma carta cheia de selos, depois me enchia de olheiras de uma noite mal dormida, resultado de uma tosse infinita de tempos de chuva. Remoeu-se, amargo, enquanto eu me preparava para inflar os pulmões na rua – sem culpa. E sem medos.

Distraiu-se.

Abrigou-se, ressabiado, embaixo dos lençóis dobrados sob o travesseiro. Escondeu-se  no fecho da minha saia rodada, que você gostava tanto. Cerrou os olhos até que as imagens sumissem. Adormeceu.

Até quando, não sei. Por via das dúvidas, falemos baixo,

 

que é pra não acordá-lo.

O pior vício de Jullie é a esperança incorrigível.

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