Marchas, Vitória e Marchas – Parte 2

por J

(Post escrito um dia antes da Marcha, publicado somente agora. Cuidado. Eu sou brava. Não foi à toa que nasci dia 8 de março, filha de uma senhora muitíssimo arretada.)
Saudações, gente. Continuarei as minhas divagações, meio em cima da hora, mas antes tarde do que nunca.

Sabe aquela história sobre mulheres que são condenadas POR serem estupradas – uma prática comumente associada a países fundamentalistas islâmicos, certo? PÉEEEE. Errado. Durante uma fala bem Ocidental, que aconteceu lá no Canadá, um certo policial escroto resolveu falar que, para evitar o estupro, as mulheres é que não deviam se vestir como vadias. Sim, você leu corretamente. Além de ser estuprada, a vítima passa a ser culpada pela violência – porque estava vestida ‘como uma vagabunda’. A Marcha é uma resposta a esse posicionamento; é uma questão de dizer que, nós, ‘vagabundas’, temos o direito de vestir qualquer roupa, sem ter que sermos desrespeitadas, ou tachadas disso ou daquilo.

Um dos grandes problemas da Marcha das Vagabundas (ou Vadias, numa tradução livre de Slutwalk) é o desvirtuamento. Assim como já disse a Lola, um dos riscos que corremos é de que, na tentativa da desmitificação da sexualidade, acabemos sendo, mais outra vez, desrespeitadas. Isso me preocupa um pouco. Ao invés de dizerem aos homens para não estuprar, dizem às mulheres que ELAS é que provocam o estupro. As degradadas filhas de Eva são as culpadas por suas misérias, né? Ou alguém vai me dizer que, no caso de um abuso sexual contra um homem, o cara estava vestido de muleke piranha? Na certa, vão falar que ele era gay. Afinal, machismo e homofobia são amigos antigos e gostam de andar de mãozinhas dadas.

A mulher ideal (a pra casar, aquela que adora uma cozinha) não deve ter vida sexual, se vestir como uma freira. Se for virgem, melhor ainda, certo? A outra, a prostituta, merece ser abusada, apedrejada, ridicularizada; são as Geisy’s nossas de cada dia. “Taca pedra na Geni!” Esse pensamento machista é típico e bem comum. Mas o que as pessoas esquecem é que não existe distinção entre essas duas mulheres. São a mesma mulher, como outras milhões. São pessoas que amam, sofrem, transam, sentem desejo, repulsa, criticam, trabalham, estudam, vivem – e nada disso deveria ‘ser feio’ pra nós. E se ser segura de si, de sua vestimenta e de sua conduta sexual é ser vadia, call me vadia, então.

Eu já escrevi um post sobre feminismo no dia do meu aniversário. Eu estava desanimada, cansada e triste; são tantas falhas e tanto machismo que a gente fica até tonta. Mas uma iniciativa como essa desperta nossa vontade de mudar tudo. E juro que até dá uma poeirinha de esperança no meu coraçãozinho vagabundo.

Jullie nasceu prematura às 23 horas do dia 8 de março, e saiu empurrando tudo, apressada, pra ver se dava tempo.

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