Croniquarta 2 – Avesso

por J

Quando Cândida deu por encerrado o coito matrimonial daquela noite, carregava em si mesma a certeza inexorável de ter concebido. Deitou-se suave entre os lençóis, balançando o corpo com cuidado. Respirou fundo e acendeu uma vela a São Judas Tadeu.

Deram-na como louca, embora Cândida estivesse resignada aos impropérios maternos. Alimentava-se com voracidade, à medida que o ventre intumescido crescia. Ora, todos sabiam que ela jamais teria filhos por uma moléstia de menina, mas se espantavam ao ver a redonda protuberância arredondada que lhe crescia do tronco. A mulher tecia o enxoval da criança com uma alegria pequena dos grandes eventos diários. Quando começou a sentir as contrações, percebeu que havia algo de novo. O filho amado parecia cada vez mais junto de si e de suas entranhas, num grande expurgo de dor. Por fim, nasceu para dentro, em meio ao conteúdo viscoso de seu corpo; era, sem sombra de dúvidas, um menino saudável. Cresceu forte e em saúde, afeto.

Já moço, lutava por espaço em meio ao mundo caótico do organismo de sua mãe. Tornava-se cada vez mais difícil sustentá-lo, através daquele delicado e englobável contato. Cândida decidiu evitar o fumo para não prejudicar o frágil rapaz. Cozinhava toda a sorte de refeições esplêndidas para agradá-lo, e comia-as com voracidade para fornecê-las ao filho amado, que crescia, satisfeito, em seu ventre monstruoso.

Um dia, com o filho homem feito, acordou com uma dessas intuições infalíveis maternas, e sentiu o peito apertado, e que a angústia lhe corroía as entranhas, e que os medos lhe assombravam os sonhos; saltou, veloz, pela cozinha, e percebeu que o medo não era dela, mas de seu filho que relutava no ventre, num soluço fatal.

-Filho não devia de morrê antes da mãe. – observou, em desespero.

A embolia pulmonar de seu filho já consumia as entranhas de ambos. Cândida sentou-se, desalentada; ela já sabia de antemão o que iria ocorrer. Mas, ainda assim, ele fez questão de, antes de dar seu último suspiro, num adeus pungente, tangendo os catéteres, tocar com a ponta dos dedos em seu coração de velha.

Jullie há muito queria ter essa croniquarta; pariu-a correndo para que ainda fosse quarta.

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