Croniquarta 1 – Moléstia

por J

Já era fim de tarde, e Francisco se arrastava entre o matagal alto como se não tivesse pernas. A fome apertava-lhe as entranhas, de modo que, ao olhar o cadáver ainda fresco de José Antônio, só não se impulsionava à antropofagia por um medo seco de morte. As pústulas cobriam a face do sobrinho, que, horas mais tarde, alcançaria um estado bolorento. Caminhou por entre a mata fechada, com um toco de ferro tremelicando entre os dedos moídos de sono e pavor.

O avião caíra em um momento de distração tola. E os homens sobreviveram, ainda que doessem-lhes todos os ossos do corpo, ou que se saltassem as feridas sujas na pele. Do alto do morro, observou o longínquo teco-teco estraçalhado, e não pôde deixar de pensar em sua sorte pérfida:

-Caralho.

Encontrou água limpa como sua consciência, e bebeu-a. Um bicho, desses que voam, matara o rapaz inerte ao seu lado num beijo venenoso e repugnante. Sentia no ar uma atmosfera lúgubre, e após saciar sua fome com um pássaro verde como a pele do putrefato José Antônio,  fez-se o sinal da cruz, e enterrou-o dignamente, em uma clareira próxima, como bom cristão que o era.

Procurou, de forma insistente, uma cruz que atendesse aos seus desígnios pessoais, entre tantos vegetais estranhos e desconhecidos. Teve medo de onças anêmicas, e as onças anêmicas desprezavam sua carne azeda. Ao procurar os  vestígios de seus caminhos, observou os pedaços de ferro distorcido, com um sentimento de maldição. Continuou caminhando entre a mata fechada. E, quando avistou, de longe, luzes faiscantes, lembrou-se da sua mulher. Dorotéia, a esta hora, arrumava-se, tântrica, entre sais e óleos de banho, corroendo uma viuvez precoce e conveniente. Olhou-se no espelho botando-se em vermelho, incógnita por um xale e pela força do destino. E, quando Francisco finalmente avistou Xapuri, a mulher prostrou-se aos seus demônios ocultos e partiu-se pelas ruelas de pedra rumo a um novo amor.

Jullie esperou a quarta só por causa do trocadilho. Han. Han.

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