Todos os olhos*

por J

Tem gente que sonha em ir pro BBB, com a revolução, com uma Tecpix ou uma máquina de fralda. Meu sonho é um só: ter meu grau de miopia estabilizado¹ e fazer uma bela cirurgia. Tudo começou quando eu tinha sete anos e a carteira do meio da sala já não satisfazia, bem como a distância saudável da cartilha de textos “vovó-viu-a-uva”. Quando coloquei meu primeiro par de óculos, descobri que o mundo era lindo e nítido, e que existia um universo de possibilidades e traços.

No ano posterior, meu grau aumentou um tiquinho. No próximo, mais um pouco. Geralmente eram pulos generosos, entre cerca de meio e um grau – por ano. A criança, cada dia mais cega, tentava em vão encontrar uma armação feita de titânio que suportasse a serelepice da infância. Em vão, precisei realizar contínuas visitas às óticas para desentortar meus óculos, conquistando o ódio dessa classe trabalhadora (e o bullying dos coleguinhas).

Por fim, aos 16 anos, já usando uma lente generosa (leia-se um fundo de garrafa retornável de Reizinho diet), decidi optar pelas lentes de contato. Essa escolha, porém, foi tomada num ato de insensatez. Se eu já vivia fodendo as minhas pobres armações, que dizer das frágeis lentes gelatinosas? As bactérias nelas presentes passaram a viver em simbiose com os meus olhos, me dando alguns super-poderes (como a visão ridícula). Mas já não eram suficientes… porque um dia, lentes acabam. Ficam secas, esturricadas e incômodas. Óculos são para a vida.

Um dia, voltando à noite pra casa, vi um cachorrinho parado no ponto de ônibus, de longe. Apressei-me pra dar uma olhada, e descobri o que seria uma sacola de plástico jogada. E outro dia, um gato vira-lata começou a me seguir na rua de baixo (isso é sério). Ao me deparar com outro gato, de mesma cor, descobri que o segundo era um pedaço de papel pardo. De duas, uma: ou existem animais-objeto-transfigurantes me stalkeando, ou o meu grau teria aumentado novamente.

Hoje, depois de apenas três horas de sono na noite-madrugada-manhã-whatever, fui arrastada por minha mãe ao oftamologista (que eu marquei antes da gandaia). Não me lembro exatamente como cheguei, muito menos como fiz pra voltar, mas minha genitora me relatou que só tive um aumento de 0,25. Um passo rumo à sonhada estabilização? Meu coração se enche de ilusões e sonhos. Só tá faltando o astigmatismo dar aquela trégua. Vamo fazer uma corrente de energia positiva, seuslindos?

*O cd do Tom Zé, né, gente. ‘cês tão ligados, né. Googla aí.

¹ Isso foi uma hipérbole, seus danadinhos.

A brincadeira favorita de Jullie na infância era cabra-cega. Mentira.

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