Aniversário, Feminismo e Luta.

por J

Como provavelmente os meus (cerca de três) leitores já sabem, dia oito de março é meu aniversário. O dia em que nasci (alalaô), além de ter brigadeiro e bolo, é também dia Internacional da Luta das Mulheres, que é mais conhecido como “dia das muié”. Permitam-me alguns instantes de divagação.

Quanto a ela, a “muié” em si, é essa formosa construção social sustentada por nossas lindezas patriarcais. E chegamos à presidência, hein? ó. Os percalços do caminho, entretanto, tomaram tudo aquilo que se poderia julgar como esperança. Dilma mostrou-se excepcional no discurso esperado de um exemplar de seu gênero: abrandou a voz, acalmou os ânimos, “aborto eu? mánemoooorta, sou senhora cristã, respeitosa, vou até na missa”. E foi. Do lado de fora da igreja estávamos nós; não tinha mais lugar perto do padre. Fomos excomungadas, aborteiras!, e cá ainda estamos. Ficamos todas aqui, nas escadas, a ver navios e esperanças irem pelo espaço.  E dessa forma permanecemos: nessa hemorragia de urgências, manchando as brancuras da Família Brasileira, esse baluarte dos bons costumes. Ora, se a mulher sai a cozinha, a cozinha não sai dela… de quem?  Adivinha.

A data da nossa luta foi vulgarizada. Tornou-se um dia em que gente escrota adora nos dar flores artificiais cafonas e brindes cor de rosa, algo no mínimo muito kitsch (as flores, a situação, tudo). Explico-me. O kitsch (bom, foquemos em Kundera) é o mundo das sensações pelas sensações. É o mundo plástico, assim como os nossos brindes de cores pastéis. É falso e inutilizável, onde é composto seu principal fator: a negação da merda. Como definir de outra forma a farsa da “conquistada” emancipação feminina? Ainda ganhamos menos, ainda sofremos humilhações e abusos, ainda temos papéis pré-determinados na sociedade. Como explicar que o machismo ainda socialmente aceito? E, quando digo socialmente aceito, digo perpetuado, festejado, difundido. Eu não preciso dar exemplos; qualquer pessoa (que não tenha ficado confinada numa saleta vazia e escura nos últimos 15 mil anos) conhece as gracinhas, os estereótipos, as falácias e outros excrementos dos distintos amantes do falo.

A mentalidade machista arraigada (em homens e mulheres) ainda é o principal empecilho na busca pela igualdade. Muitos dos homens ainda se acreditam detentores dos corpos femininos, como se estes fossem sua propriedade domínio. Observá-lo, julgá-lo, reprimi-lo, tomá-lo: tudo é permitido. É nessa linha de pensamento que residem os “estupros corretivos” e abusos físicos, por exemplo. É triste ter que pensar em leis para proteger as mulheres quando esse comportamento sequer deveria existir. Tivemos sim, nossas conquistas; ainda são insuficientes. Se hoje a mulherada dá risada do machismo de revistas antigas, eu sofro um pouco porque não percebem que mudou muito pouco. Essa luta está longe de chegar ao fim.

A ditadura midiática imposta a nós sequer chega a ser tênue; é escancarada.  As formas de sustentar esses preceitos evoluíram, tornaram a trama mais concisa – e difícil de ser distinguida. Escapar é complicado, porém vamos à nossa parte: dia 11 de março acontecerá a tradicional marcha pelos direitos das mulheres aqui em Belo Horizonte. Acredito que a presença de todos que acreditam nessa causa é imprescindível. O primeiro passo, assumir o problema, já está tomado. Estejamos todos unid@s contra a situação demagógica e medieval nos é imposta!

Com isso, reafirmo meu anseio: oficialmente mulher, aos dezoito anos, tenho prognósticos nada animadores. Se você discorda disso tudo, deve ser meio machista (ou só cuzão, mesmo). Aliás, quem nunca teve seus arroubos de estupidez, que atire a primeira rosa de plástico.

Jullie aproveita a ocasião e convida a todos para ir na Fujiyama comer pastel e a dançar no Baile de Máscaras do Bordello para comemorar seus dezoito anos. :)

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