Ah, vô.

por J

Bom dia, vô. Eu te amo, sabia? Hoje é seu aniversário. São 84 anos! Quanto tempo, hein! Passa depressa. Ah, se o senhor soubesse. Andei muito cansada esses dias. Não, não tô com pressa. Ah, biscoitinho? Só um, que é pra vó não ficar triste. Porque eu sei que ela fica se eu não pegar, não fica? Fica sim. Então eu pego. Tá calor, aqui, não tá? Vou ali na cozinha. Nossa, que chuchu bonito! Aposto que foi o senhor que plantou, né? Tô satisfeita, obrigada. Minha mãe tá boa, eu acho. Ela é difícil, o senhor conhece, né.

Vô, o senhor não sabe. Não sabe o quanto significa pra mim. Não sabe que através dessas mãos duras e calejadas moram as doçuras mais suaves do mundo. Porque sua voz é mansa, vô. Mansa como seus passos. Mansa como seu espírito. Sua voz tem a calma das certezas, daqueles que já passaram por tudo, tudo. E sobreviveram, e foram felizes! E são felizes, vô! Como não ser, quando o senhor exala por todo canto o quanto é feliz? O senhor é a prova de que tanta coisa é uma questão de ponto de vista…

E essa mania de olhar a cidade tão de perto (que era só bonde, e terra, e árvores, e essas montanhas)?  É porque você a viu assim, novinha ainda. E já andou de carro, de ônibus, de bicicleta, de cavalo, de bonde, de trem. Diz que pra andar de trem, tinha um guarda pó, assim. Eu também cresci, vô! E o senhor abre um sorriso e diz que vai me ensinar a andar de carro, porque o senhor conhece tudo; o estudo é pouco, mas a vivência é tanta!, a cidade é a palma da sua mão (e as avenidas devem ser as veias). É tanta rua, meu Deus. É tanta história. Não chamava táxi não, era “carro de praça”; motorista, como o senhor, era choffeur. E o senhor ainda olha pra metrópole com essa ternura de cidadezinha, sabe? Como quem vê criança crescer, e abre os braços pra poder carregar; a cidade e o mundo. São esses braços infinitos que conseguem envolver toda a sorte de coisas. Conseguem entender tudo.

Ah, vô, se o senhor soubesse! Soubesse que os meus dias andam tão cansados, afoitos, sem paz. Que a minha vida anda louca, que eu acho tão difícil fazer escolhas! E eu vou percorrendo assim mesmo, cambaleante, que o mundo não pára de girar pra eu juntar meus cacos. A vida é assim mesmo, difícil… Mas se eu perguntar se o senhor é feliz, eu sei a resposta. Se eu perguntar qualquer coisa, o senhor vai saber, também. Como sempre.

E enquanto eu puder mergulhar nesses olhos azuis de águas tranquilas, eu sei que vai ficar tudo bem.

Seu Izidro ainda me dá um bombom em toda tarde de sábado.

Anúncios